A história que o cinema frequentemente nos vende sobre O Morro dos Ventos Uivantes é a de um romance tóxico entre dois brancos em um cenário bucólico. Contudo, ao abrirmos o livro de Emily Brontë, publicado em 1847 e ambientado entre 1771 e 1803, encontramos a necrópsia de um império construído sobre o que os estudos decoloniais, como os de Aníbal Quijano, chamam de cicatriz ou ferida colonial. Esse termo descreve o trauma indelével deixado pela exploração de povos e territórios, uma marca que, embora curada na superfície pelo fim formal dos sistemas coloniais, alterou permanentemente o tecido social através da colonialidade do poder.
Heathcliff é o corpo estranho inserido no coração da aristocracia rural inglesa em um período onde a Grã-Bretanha consolidava seu domínio sobre quase 25% da massa terrestre mundial. Quando o Sr. Earnshaw o encontra nas ruas de Liverpool, ele o retira do epicentro do trauma global: o porto de Liverpool era o maior centro do slave trade europeu. Segundo o Trans-Atlantic Slave Trade Database, entre 1701 e 1810, navios saindo de Liverpool transportaram aproximadamente 1,3 milhão de pessoas escravizadas, detendo sozinha mais de 40% de todo esse comércio em 1770.
Brontë descreve Heathcliff como tendo “pele escura” e “olhos de cigano”, categorias que na era vitoriana funcionavam como rótulos raciais guarda-chuva para o “outro” não-branco. Mais do que isso, ele é chamado de lascar, termo específico para marinheiros do sudeste asiático recrutados pela Companhia das Índias Orientais. Como documentado pela historiadora Rozina Visram, milhares de lascars e africanos viviam invisibilizados na Inglaterra vitoriana, frequentemente abandonados nos portos sem recursos. A branquitude homogênea do romance gótico no cinema é, portanto, uma escolha política de apagamento histórico.
O gênero gótico sustenta-se na tensão entre o “civilizado” e o “selvagem”. Ao escalar atores brancos, Hollywood remove a espinha dorsal do personagem; sua exclusão não é apenas por pobreza, mas por ser intrinsecamente inassimilável pela supremacia branca. A verdadeira ofensa de Heathcliff para a mentalidade colonial não foi sua violência, mas sua ascensão financeira através da inversão da lógica colonizadora. Ao retornar rico, ele usa o capital — a ferramenta máxima do opressor — para tomar as terras dos Earnshaw e dos Linton, provando que, para a aristocracia, a maior ameaça é um corpo racializado que deixa de ser mão de obra para se tornar dono.
Essa tensão molda as relações femininas: Catherine comete uma traição racial ao dizer “Eu sou Heathcliff”, identificando-se com o “selvagem”, enquanto Isabella Linton o idealiza através do exotismo, sofrendo as consequências de tentar domesticar o que o próprio império feriu. Como analisou Frantz Fanon, essa ferida psíquica é a base da identidade colonial: o desejo de ser visto em um sistema projetado para cegar.
Esse processo de exclusão reflete o clima político real e hostil da Inglaterra de hoje. Nas eleições de 2024, o partido Reform UK conquistou mais de 4 milhões de votos (14,3% do total), impulsionando discursos que categorizam imigrantes como “invasores”. Essa hostilidade manifesta-se no escândalo de Windrush e nas políticas de “Ambiente Hostil” do governo britânico. Dados atuais do Home Office (Ministério do Interior) indicam que crimes de ódio racista representam mais de 70% dos incidentes registrados (cerca de 100.000 casos anuais), provando que a Inglaterra ainda trata os filhos de suas colônias como convidados indesejados em uma casa que eles mesmos ajudaram a construir.
Heathcliff é a personificação da vingança colonial: o corpo que o império explorou e que agora volta para cobrar a conta, lembrando que o gótico nunca foi sobre fantasmas de lençol, mas sobre os fantasmas que criamos ao tentar enterrar a verdade histórica.
Isso tudo para falar, Dev Patel era uma melhor opção….


