O Silêncio das Listas: “Sinners”, o Racismo Institucional e a Invenção do “Outro”

O anúncio das listas de “Melhores do Ano” de publicações como Variety e Vanity Fair trouxe um silêncio ensurdecedor: a ausência de Sinners, o novo épico de terror de Ryan Coogler. Em uma indústria que clama por diversidade, a exclusão sistemática de uma obra que desafia o status quo revela que o racismo institucional na crítica cinematográfica não é um erro de percurso, mas uma ferramenta de controle.

A Anatomia da Alteridade: De “Parasita” ao Horror de Coogler

O conceito de Othering (Alteridade) é a espinha dorsal desta discussão. Trata-se do processo sociológico de definir um grupo como “o outro”, privando-o de sua complexidade para reafirmar a superioridade de quem detém a narrativa.

Vimos a maestria dessa construção em Parasita (2019), onde a alteridade é marcada pelo “cheiro” e pelo abismo social, e em Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022), que explora o deslocamento da experiência imigrante através do caos do multiverso. Em Sinners, Coogler e Michael B. Jordan elevam esse conceito ao terror puro. Situado no Sul segregado dos anos 30, o filme mostra como o sistema racista transforma o corpo negro em uma projeção de medo sobrenatural. Ao ignorar o filme, a crítica tradicional repete o comportamento da diegese: empurra a narrativa negra para a periferia, tratando-a como “nicho” ou “gênero menor”.

O Orientalismo no Cinema Contemporâneo

Para entender essa barreira, é fundamental recorrer a Edward Said e sua obra seminal, Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. Said argumenta que o poder dominante cria uma visão fantasiosa e estática do “Outro” para justificar sua própria hegemonia. Como ele bem definiu no livro:

“O conhecimento sobre o Outro não é um ato de curiosidade pura, mas uma demonstração de poder. Definir o Outro é uma forma de dominá-lo.”

Na Hollywood de 2026, esse “Orientalismo adaptado” se manifesta quando a crítica branca só valida o cinema negro se ele se encaixar em traumas palatáveis ou estereótipos de sofrimento. Quando Coogler entrega um horror visceral que inverte o olhar e coloca o racismo como o verdadeiro monstro, o sistema reage com o apagamento.

Michael B. Jordan e o Terror como Manifesto

A performance de Michael B. Jordan em Sinners não busca apenas o susto; ela busca a agência. Ele personifica o herói que se recusa a ser a “vítima sacrificial” dos clichês do gênero. Jordan e Coogler sabem que, para o homem negro naquela época (e talvez hoje), o perigo real não vinha de criptas ou fantasmas, mas da vizinhança que sustenta o sistema de castas.

A exclusão de Sinners das listas de prestígio é a prova de que a crítica ainda teme o espelho. O filme não precisa da validação da Variety ou da Vanity Fair para ser histórico; ele já nasceu como um manifesto incômodo de uma indústria que ainda tem pavor de encarar seus próprios pecados.

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